segunda-feira, 15 de junho de 2009

O argumento ontológico a favor da existência de Deus, ta,bé conhecido como o "Argumento de Santo Anselmo"

No seu livro Proslogion, Santo Anselmo apresenta o seu argumento em favor da existência de Deus. Um argumento que mesmo São Tomás de Aquino, o maior teólogo e filósofo medieval (cerca de 2 séculos depois) não aceitou, mas que alguns ainda hoje dizem ainda não ter sido rebatido.

Na formulação do argumento, Santo Anselmo dirige-se ao "Néscio", personagem bíblica (salmo 14), que diz, no seu coração, que Deus não existe.

Passo então a citar, do livro acima indicado, o tal argumento:

"Assim, pois, Senhor, tu que dás a inteligência da fé, dá-me, tanto quanto
aches bem, que eu compreenda que tu existes como nós acreditamos
e que tu és o que nós acreditamos. Nós acreditamos, com efeito,
que tu és “alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado”.
Será que não existe uma tal natureza, uma vez que o “insensato disse
no seu coração: ‘Deus não existe’ ”? Mas certamente este mesmo
insensato, quando ouve isto que eu digo – ‘alguma coisa maior do que
a qual nada pode ser pensado’ –, compreende o que ouve, e o que ele
compreende existe na sua inteligência, mesmo se ele não compreende
que isso existe . Porque uma coisa é que certa realidade
esteja no intelecto, outra é compreender que tal realidade existe. De
facto, quando um pintor pensa antes o que vai fazer, tem na inteligência
o que ainda não fez, mas de modo nenhum compreende que exista o
que ainda não fez. Pelo contrário, quando já o pintou, tem na inteligência
o que já fez e compreende que isso existe . Mesmo
o insensato está, pois, convicto de que “alguma coisa maior do que a
qual nada pode ser pensado” existe pelo menos no intelecto: porque ele
compreende-o quando o ouve, e tudo o que é compreendido existe no
intelecto.
Mas, sem dúvida, “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado”
não pode existir unicamente no intelecto. Se, na verdade, existe
pelo menos no intelecto, pode pensar-se que exista também na realidade,
o que é ser maior. Se pois “aquilo maior do que o qual nada pode
ser pensado” existe apenas no intelecto, então “aquilo mesmo maior do
que o qual nada pode ser pensado” é “algo maior do que o qual algo
pode ser pensado”. Mas isto, , é claramente impossível.
Existe, pois, sem a menor dúvida, “alguma coisa maior do que a
qual nada pode ser pensado” tanto no intelecto como na realidade."

O Argumento de Santo Anselmo pode portanto ser apresentado em dua fases distintas:

- Uma primeira fase na qual depreendemos que qualquer um (mesmo o Néscio) compreende o conceito de Deus. Sendo que, como tudo o que compreendemos existe no "entendimento", então, Deus existe no entendimento.

- Uma segunda fase que se supõe que Deus existe apenas no entendimento e não na realidade. Assim, pode conceber-se um ser maior que Deus - um ser que existe na realidade. Mas tendo sido Deus definido como "o ser maior do que o qual nada pode ser concebido", então, por definição, nenhum ser maior pode ser concebido, o que nos leva a uma contradição. Logo a nossa suposição original era falsa.

Espero ter sido explícito.

Como devem imaginar, muitos comentários tenho a fazer a este argumento, mas fá-los-ei na sequência dos vossos comentários...

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