Este jogo de retórica parece-me, tão instintivamente, absurdo, que não consigo compreender como lhe foi dada tanta importância.
Na realidade, é mais fácil chamá-lo de absurdo (embora eu continue a achar que, de facto, o é) do que contrapô-lo. Decerto, muitos já o terão feito.
3 perguntas:
- Porque é que se supõe que algo que existe no intelecto, existe também na realidade?
- Porque é que o que existe na realidade é mais perfeito do que o que existe apenas no intelecto?
- Pode realmente pensar-se em algo que nunca poderá ser pensado? (da mesma forma que se pensa no infinito, omnipotência, perfeição, nada, desconhecido - conceitos que só servem para definir a indefinição).
“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” - John Stuart Mill
sexta-feira, 19 de junho de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
O argumento ontológico a favor da existência de Deus, ta,bé conhecido como o "Argumento de Santo Anselmo"
No seu livro Proslogion, Santo Anselmo apresenta o seu argumento em favor da existência de Deus. Um argumento que mesmo São Tomás de Aquino, o maior teólogo e filósofo medieval (cerca de 2 séculos depois) não aceitou, mas que alguns ainda hoje dizem ainda não ter sido rebatido.
Na formulação do argumento, Santo Anselmo dirige-se ao "Néscio", personagem bíblica (salmo 14), que diz, no seu coração, que Deus não existe.
Passo então a citar, do livro acima indicado, o tal argumento:
"Assim, pois, Senhor, tu que dás a inteligência da fé, dá-me, tanto quanto
aches bem, que eu compreenda que tu existes como nós acreditamos
e que tu és o que nós acreditamos. Nós acreditamos, com efeito,
que tu és “alguma coisa maior do que a qual nada pode ser pensado”.
Será que não existe uma tal natureza, uma vez que o “insensato disse
no seu coração: ‘Deus não existe’ ”? Mas certamente este mesmo
insensato, quando ouve isto que eu digo – ‘alguma coisa maior do que
a qual nada pode ser pensado’ –, compreende o que ouve, e o que ele
compreende existe na sua inteligência, mesmo se ele não compreende
que isso existe . Porque uma coisa é que certa realidade
esteja no intelecto, outra é compreender que tal realidade existe. De
facto, quando um pintor pensa antes o que vai fazer, tem na inteligência
o que ainda não fez, mas de modo nenhum compreende que exista o
que ainda não fez. Pelo contrário, quando já o pintou, tem na inteligência
o que já fez e compreende que isso existe . Mesmo
o insensato está, pois, convicto de que “alguma coisa maior do que a
qual nada pode ser pensado” existe pelo menos no intelecto: porque ele
compreende-o quando o ouve, e tudo o que é compreendido existe no
intelecto.
Mas, sem dúvida, “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado”
não pode existir unicamente no intelecto. Se, na verdade, existe
pelo menos no intelecto, pode pensar-se que exista também na realidade,
o que é ser maior. Se pois “aquilo maior do que o qual nada pode
ser pensado” existe apenas no intelecto, então “aquilo mesmo maior do
que o qual nada pode ser pensado” é “algo maior do que o qual algo
pode ser pensado”. Mas isto, , é claramente impossível.
Existe, pois, sem a menor dúvida, “alguma coisa maior do que a
qual nada pode ser pensado” tanto no intelecto como na realidade."
O Argumento de Santo Anselmo pode portanto ser apresentado em dua fases distintas:
- Uma primeira fase na qual depreendemos que qualquer um (mesmo o Néscio) compreende o conceito de Deus. Sendo que, como tudo o que compreendemos existe no "entendimento", então, Deus existe no entendimento.
- Uma segunda fase que se supõe que Deus existe apenas no entendimento e não na realidade. Assim, pode conceber-se um ser maior que Deus - um ser que existe na realidade. Mas tendo sido Deus definido como "o ser maior do que o qual nada pode ser concebido", então, por definição, nenhum ser maior pode ser concebido, o que nos leva a uma contradição. Logo a nossa suposição original era falsa.
Espero ter sido explícito.
Como devem imaginar, muitos comentários tenho a fazer a este argumento, mas fá-los-ei na sequência dos vossos comentários...
domingo, 14 de junho de 2009
Benvindos
Benvindos,
vejo que, à partida, não abdicaram das vossas identidades.. não se libertaram ainda desse colete de forças que vos impede de voar mais alto (ou cavar mais fundo).
Aguardo pelas vossas provocações, mas mais que isso, pelos vossos comentários.
Aqui discute-se tudo, mesmo aquilo para o qual, à partida, não há discussão nenhuma. Aqui o óbvio é duvidável e o duvidável uma certeza absoluta. Aqui podemos ousar chamar as coisas pelos nomes, e, se se não existirem, inventá-los...
Se estão aqui é porque foram escolhidos... escolhidos por mim, eucinéfilo, talvez o mais arguto ser humano que já alguma vez pisou a crosta terrestre.. sintam-se lisongeados por isso e aproveitem a oportunidade...
sábado, 13 de junho de 2009
recordando II
(...)Só um Deus criado pelo homem necessita de fazer milagres ou qualquer outra coisa que possa provar a sua eventual existência. Um verdadeiro ser superior é-o simplesmente, e saber que o é, é suficiente, não precisa de andar por aí a transformar água em vinho ou armado em padeiro a multiplicar pães. Só um Deus criado à imagem e semelhança do homem necessita que este o bajule todos os dias ou todos os Domingos com rezas repetidas até à exaustão. Só um Deus criado pelo homem necessita de impor regras a serem escrupulosamente cumpridas sob pena deste viver o resto da eternidade assolado pelos seus próprios fantasmas ou, segundo os mais tradicionalistas, a arder dolorosamente num universo em chamas.(...)
in Os Amendoins do Ricky (comentando Lost Highway)
recordando I
A "arte" tem também ela de nos cativar a atenção, sob pena de só os "iluminados" ou aqueles com formação artística a compreendam, sob pena desta se tornar num pavonear de "artistas" perante os outros, numa troca de galhardetes imperceptível a quem esteja fora do ramo.
Seria como tocar defafinada e desarmoniosamente e esperar a crítica das poucas centenas pessoas que, no mundo inteiro, fossem capazes de se alhear da total barafunda sonora e encontrassem uns compassos perdidos no meio do caos musical.
A arte deve ser universal. Deve dar prazer tanto ao catedrático de Harvard como ao pigmeu da selva africana.
Fazer "arte" imperceptível à maioria é, das duas uma, uma incapacidade de fazer efectivamente algo bom (quem não considera belo o tecto da capela cistina? ou a 9ª sinfonia de Beethoven? é pouco cativante? é "muito parada"), ou um profundo acto de egoísmo, não permitindo que todos sejam capazes de usufruir desse prazer. Como não acredito muito na segunda hipótese, creio que a maior parte daqueles que fazem esse tipo de "arte" fazem-no mesmo por falta de talento.
É mais fácil alguém agarrar-se a clichets artísticos, especialmente àquelas na moda em determinado momento e fazer algo que algumas pessoas do meio gostam, que superar esses clichets, desconhecidos pela maioria, ignorando modas efémeras, e agradar até àqueles que desconhecem modas e clichets.
Seria como tocar defafinada e desarmoniosamente e esperar a crítica das poucas centenas pessoas que, no mundo inteiro, fossem capazes de se alhear da total barafunda sonora e encontrassem uns compassos perdidos no meio do caos musical.
A arte deve ser universal. Deve dar prazer tanto ao catedrático de Harvard como ao pigmeu da selva africana.
Fazer "arte" imperceptível à maioria é, das duas uma, uma incapacidade de fazer efectivamente algo bom (quem não considera belo o tecto da capela cistina? ou a 9ª sinfonia de Beethoven? é pouco cativante? é "muito parada"), ou um profundo acto de egoísmo, não permitindo que todos sejam capazes de usufruir desse prazer. Como não acredito muito na segunda hipótese, creio que a maior parte daqueles que fazem esse tipo de "arte" fazem-no mesmo por falta de talento.
É mais fácil alguém agarrar-se a clichets artísticos, especialmente àquelas na moda em determinado momento e fazer algo que algumas pessoas do meio gostam, que superar esses clichets, desconhecidos pela maioria, ignorando modas efémeras, e agradar até àqueles que desconhecem modas e clichets.
in Os Amendoins do Ricky (comentando Red Beard)
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